O Museu de Narlıkuyu — um pequeno tesouro de mosaicos romanos na costa da Cilícia
O Museu de Narlıkuyu (Narlıkuyu Mozaik Müzesi) é um pavilhão arqueológico compacto, mas de valor inestimável, situado na aldeia costeira com o mesmo nome, na província de Mersin, no distrito de Silifke. Inaugurado em 1976, foi construído diretamente sobre as termas romanas do século IV d.C. e conserva, no seu local original, o famoso mosaico «As Três Graças» — uma das melhores obras da arte do mosaico da Antiguidade tardia no território da Turquia moderna. Apesar das suas dimensões modestas, este museu é uma paragem obrigatória no caminho de Mersin para Alanya, especialmente para os viajantes interessados na história da província da Cilícia e no património romano da costa mediterrânica. Aqui, a poucos metros da praia e das tabernas de peixe, esconde-se uma composição no chão que, há dois mil anos, guarda os rostos das deusas antigas e as palavras de uma inscrição grega antiga.
História e origem
A aldeia de Narlykuyu, que traduzido do turco significa «Poço de Romã», está situada numa baía pitoresca na costa mediterrânica, a cerca de 20 quilómetros a leste de Silifke. Na Antiguidade, esta região fazia parte da Cilícia Traqueia (Cilícia Rocosa) — uma província montanhosa e costeira do Império Romano, famosa pelos piratas, pelas paisagens fabulosas e pelos santuários. O próprio local ganhou notoriedade graças a uma fonte de água doce cristalina que jorrava junto ao mar; os romanos chamavam-na de fonte de Calliroi e acreditavam que a água prolongava a juventude e a beleza de quem a bebesse.
No século IV d.C., durante o reinado dos imperadores irmãos Poemênio, foram construídas neste local pequenas termas — banhos públicos que serviam aos viajantes de passagem e aos habitantes locais. O chão do salão principal estava revestido por um magnífico mosaico dedicado às Três Graças — Áglae (A Resplandecente), Eufrosine (A Alegre) e Tália (A Florecente), companheiras de Afrodite, que personificavam a beleza, a graciosidade e a alegria. O mosaico era acompanhado por uma inscrição em grego que elogiava os construtores das termas. Após o assoreamento e a destruição gradual das termas, o mosaico ficou soterrado sob uma camada de terra e foi descoberto acidentalmente pelos habitantes locais na primeira metade do século XX.
Escavações sistemáticas e restauração foram realizadas na década de 1960 e início da década de 1970, sob a égide do Ministério da Cultura da Turquia. Em 1976, foi erguido um pavilhão de proteção sobre o mosaico preservado, que se tornou um museu oficial. Desde então, Narlykuyu continua a ser um dos poucos locais no mundo onde é possível ver o antigo mosaico romano exatamente onde foi colocado há dezasseis séculos, sem ter sido transferido para os depósitos da capital.
Arquitetura e o que ver
O Museu de Narlykuyu é um edifício compacto em forma de pavilhão, concebido para preservar um único, mas notável, monumento arqueológico. Arquitetonicamente, é modesto e funcional: uma construção baixa e retangular com telhado de duas águas, que protege o pavimento em mosaico do sol, da chuva e do sal do ar marinho. No interior, existem passarelas de madeira e grades de vidro, para que os visitantes possam observar a composição em todos os seus detalhes, sem pisar nela.
O mosaico «As Três Graças» — a peça principal
A composição central ocupa aproximadamente 4 metros quadrados e é executada com pequenas tesselas de todos os tons da pedra mediterrânica — creme, ocre, castanho-escuro, preto, vermelho-coral e cinzento-azulado. As Três Graças são retratadas de forma clássica: três jovens mulheres nuas estão de pé, abraçadas; duas delas olham para a frente, enquanto a do meio está de costas para o espectador. Esta iconografia, que remonta à escultura helenística, repete-se em dezenas de obras romanas e bizantinas, mas é precisamente a versão de Narliku que se destaca pela vivacidade dos rostos, pela suavidade das linhas e pela delicadeza dos meios-tons. O mestre utilizou tesselas minúsculas, com apenas 3 a 5 milímetros, o que permitiu transmitir a individualidade de cada figura.
Inscrição grega e figuras de construtores
Junto à composição central encontram-se duas cenas menores, mas não menos interessantes. A primeira retrata dois homens em túnicas, de pé junto à estátua; acredita-se que sejam os irmãos governadores Poemenios, com cujos fundos foram construídos os banhos. A segunda cena é uma inscrição em verso na língua grega antiga, que glorifica os construtores e menciona a fonte de Calliroi. Esta inscrição constitui o mais importante monumento epigráfico da poesia da Cilícia do período pré-bibliotecário e é referida em todos os manuais sobre a literatura da Antiguidade tardia da região.
Artefatos e contexto
Para além do próprio mosaico, o museu apresenta pequenas vitrinas com artefactos encontrados nas escavações: fragmentos de cerâmica, objetos domésticos de bronze, candeeiros romanos e moedas dos séculos IV–VI. Todas as peças expostas estão legendadas em turco e inglês. Merece especial atenção o expositor com a reconstrução hipotética do interior das termas: ajuda a compreender como era a sala cujo chão era revestido pelo mosaico.
A Fonte de Calliroi e arredores
Mesmo ao lado do museu, continua a jorrar debaixo da terra uma antiga fonte de água doce, que durante séculos alimentou os banhos. Os habitantes locais garantem que a água é especialmente fria e limpa; um pequeno pavilhão de pedra permite aos turistas enchê-la em garrafas. A partir do museu, chega-se em dois minutos à miniatura da orla de Narlykuyu, com passarelas de madeira sobre águas cristalinas e dezenas de restaurantes de peixe ao ar livre, onde se servem tainhas, douradas e camarões recém-pescados.
A caverna de Kenik e os sumidouros de Heaven e Jehennem
A dois quilómetros do museu encontram-se os famosos abismos geológicos — as cavernas de Jennet ve Jennem (Paraíso e Inferno). Trata-se de enormes crateras cársticas num maciço calcário, no fundo de uma das quais se conservou uma capela paleocristã do século V. Segundo a lenda, foi aqui que Zeus aprisionou o monstro Tífon, que tentou derrubar os deuses do Olimpo. Muitos viajantes combinam a visita ao museu com a exploração das cavernas — a distância permite fazê-lo em meio dia.
Factos e lendas interessantes
- A fonte de Calliroi é mencionada pelos geógrafos antigos Estrabão e Pomponio Mela como as «águas curativas da Cilícia», que ajudam nas doenças de estômago e conferem beleza.
- O mosaico «As Três Graças» de Narlykuyu é considerado um dos primeiros exemplos na Ásia Menor de representação retratística detalhada de figuras mitológicas com rostos tão individualizados.
- Poemênio, mencionado na inscrição, foi governador da Esávria e da Cilícia e é conhecido por vários monumentos epigráficos da região; alguns investigadores identificam-no com o correspondente homónimo das cartas de Símaco.
- Na tradição folclórica local, a água da fonte de Narlykuyu ainda hoje é chamada de «elixir da juventude», e muitos idosos da aldeia vêm aqui diariamente.
- As escavações da década de 1960 foram conduzidas pelo arqueólogo Hüseyin Yolalan, cujos relatórios continuam a ser a principal fonte de informação sobre o monumento.
- O nome completo das cavidades próximas do museu é «Djenet ve Djenem», que se traduz como «Paraíso e Inferno»; a profundidade do «Inferno» ultrapassa os 120 metros, e apenas alpinistas com equipamento podem descer até lá.
- Em Narlykuyu, foram regularmente filmadas séries históricas turcas e documentários sobre a Cilícia romana — o mosaico aparecia no ecrã como «cenário» para cenas de banhos imperiais.
Como chegar
Narlykuyu está localizado na estrada D400, que segue ao longo da costa mediterrânica de Mersin a Alanya. A distância a partir de Mersin é de cerca de 75 quilómetros (aproximadamente 1 hora e 15 minutos de carro), a partir de Silifke — 22 quilómetros (25 minutos), a partir de Antália — cerca de 350 quilómetros (5–6 horas).
A opção mais conveniente é um carro próprio ou alugado: a estrada é pitoresca e passa ao longo de rochedos, enseadas e praias. De Mersin e Silifke, circulam várias vezes ao dia autocarros municipais e dolmuşes para a aldeia de Narlykuyu; a paragem fica a cinco minutos a pé do museu. Os aeroportos mais próximos são Adana Şakirpaşa (ADA, cerca de 150 km) e Gazipaşa-Alanya (GZP, cerca de 240 km). O estacionamento junto ao museu é gratuito e, normalmente, há lugares suficientes, mesmo na época alta. Se viajar num cruzeiro que faça escala em Mersin, pode chegar a Narlykuyu numa hora de táxi.
Dicas para o viajante
São suficientes 30 a 45 minutos para visitar o museu; reserve o mesmo tempo para um passeio pela baía e um almoço numa das tabernas. A melhor altura para visitar é a primavera (abril-maio) e o outono (setembro-outubro), quando o calor diminui e o mar continua quente para nadar. No verão, especialmente em julho–agosto, recomendamos chegar de manhã (o museu abre normalmente às 9:00) ou mais perto do pôr do sol, para evitar o calor do meio-dia e os grupos de autocarros.
Na bilheteira aceitam-se liras turcas em dinheiro e cartões bancários; funciona o Müzekart+ — um passe anual para os museus da Turquia, que se amortiza com a visita a 5–7 locais. No interior do pavilhão é fresco graças às paredes grossas e à sombra; é permitido fotografar sem flash. Tenha em conta que as passarelas são estreitas e não estão adaptadas para cadeiras de rodas; recomenda-se aos visitantes idosos que usem calçado confortável, uma vez que há vários degraus no salão.
Combine a visita a Narlykuyu com a visita a atrações vizinhas: as cavernas de Cennet ve Cennet (10 minutos de carro), a cidade antiga de Coricos com a sua famosa fortaleza marítima de Kizkalesi (15 minutos), as ruínas de Aya-Fekla (25 minutos), bem como a fortaleza e o castelo de Silifke. O itinerário completo «Cilícia romana num dia» inclui todos estes locais com almoço em Narlykuyu. No caminho de volta, não deixe de provar o peixe grelhado local, a limonada de figo e o dondurma (gelado turco de consistência elástica). Leve uma garrafa de água da fonte de Kalliroi — mesmo que não seja o «elixir da juventude», dificilmente encontrará em outro lugar água fresca e pura de origem antiga.